quinta-feira, 21 de maio de 2015

A velha senhora

Biblioteca Altino Arantes, na rua Duque de Caxias, 547

Naturalmente, não conheci a dona Theolina de Andrade, morta em 1954. Também chamada de Sinhá Junqueira, seu olhar hoje paira sereno, num grande quadro pendurado em uma das salas do casarão onde ela viveu, na rua Duque de Caxias.

Em seu testamento, a sinhá fez algo raro de acontecer nesta época em que vivemos - deixou expressa, e por escrito, a ordem para transformar o seu casarão em uma biblioteca de acesso público.

E lá está, até hoje, a Biblioteca Altino Arantes. Um raro exemplo de preservação do patrimônio histórico, normalmente tão desprezado pela maioria.

Conheci a biblioteca ainda moleque. Como morava a poucas quadras de lá, não era raro usar suas pesadas enciclopédias para trabalhos escolares nos tempos do Dom Luiz do Amaral Mousinho.

Tardes e tardes debruçado sobre aquelas pesadas mesas de madeira, copiando textos para trabalhos de história, geografia, biologia, português.

Pois outro dia voltei à Biblioteca Altino Arantes. Mais do que isso, voltei ao meu passado. Lá estão as mesmas mesas, as mesmas cadeiras, basicamente os mesmos livros, o mesmo olhar da Sinhá Junqueira e o mesmo José Carlos Gomes. Há quase meio século trabalhando na biblioteca, Gomes começou como officeboy e hoje administra o prédio e o seu acervo com mais de 40 mil obras. Títulos que estão lá, dia sim, dia também, à disposição de quem queira se desligar do “maravilhoso mundo tecnológico”.

Neste meu retorno, saí de lá com um livrão de seiscentas páginas de Dom Quixote. Não terminei ainda, mas pretendo voltar mais vezes à Altino Arantes. Me aguarde, Sinhá.

Texto e foto: Angelo Davanço

quinta-feira, 14 de maio de 2015

A Epopeia de 32

Monumento aos combatentes da Revolução de 1932, na Praça XV de Novembro

Os dias passam e lá está ela, silenciosa: a Epopeia de 32. Eu a observo e, do alto do seu silêncio, ela observa tudo. Os meninos que chegam para ficar à toa, as donas de casa apressadas pelas ofertas no comércio, os primeiros copos do Pinguim, o ‘colega’ Pedro II.

Mas um dia, quente como tantos outros, noto que ela está irritada. Os dias passam e lá está ela, alvo fixo de pombos, andorinhas e outros seres alados que habitam a praça XV de Novembro. Ela já não suporta mais. Nossa combatente resolve apelar. Lança contra as aves a sua granada, testemunha fiel de tanta humilhação.

A arma passa com um petardo pela Baixada e explode nas inocentes águas do ribeirão Preto. O contra-ataque é rápido e logo a Epopeia se vê toda enlameada.

- Então é guerra?!
- Olha lá, a Epopeia falou!
- Nossa, está descendo!

Não houve registro de feridos, muito menos mortos. O certo é que muitos aproveitaram para sair da choperia sem pagar a conta, ainda confusos: - Essa bebida ainda acaba comigo!

A Epopeia não via obstáculos à sua frente, mas não chegou a causar grandes estragos. Logo as equipes de tevê já estavam na praça: - Estamos ao vivo no local onde a Epopeia faz o seu protesto.

E lá foi a nossa heroína, rumo à fonte luminosa, dar um fim a tanta sujeira. Foi tudo muito rápido, apesar de seu corpo colossal. Na sua volta, muitos aplaudiram, outros tantos choraram.

Ela subiu e continuou imponente. Retirou outra granada de seu arsenal, ficou em posição de combate e não deu mais atenção aos burburinhos à sua volta, como sempre.

Texto e foto: Angelo Davanço

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Um dia na vida

Para você ouvir enquanto lê:


Acordou atrasado, mas mesmo assim correu os olhos nas notícias do dia. Entre acidentes fatais e um sortudo que ganhou na loteria, passou o pente apressado, engoliu o café e correu para o ponto de ônibus.

Trabalhou o dia todo. Cortava cuidadosamente cada palavra, cada letra, montando painéis imensos. Contava os buracos e os preenchia, frase após frase, sentença após sentença. Leu mais uma vez sobre enriquecimentos ilícitos, sobre negociatas, sobre lucros de milhões, de bilhões.

Não pôde deixar de rir ao ver a própria imagem refletida no vidro. Como uma fotografia, ela denunciava o tempo. Não havia multidão, não havia burburinho. Apenas uma única imagem refletida no vidro.

“Dança, fada, açúcar, ameixa”, repetia seu mantra sempre que lia histórias de poderosos envolvidos em podridões. Lembrava-se do aluguel, da torneira pingando, todas as noites, todas as manhãs.

Naquele dia, mais uma vez olhou para trás. Milhares de palavras recortadas meticulosamente para contar histórias de paz e de guerra. Histórias de mocinhos e bandidos. Os olhos correndo pelas palavras, recortando, colando, refletindo, poderosos, milhões, bilhões.

Naquela noite, voltou para casa na hora de sempre. Beijou a mulher, observou os sonhos das crianças e ficou à espera de mais uma manhã. “Dança, fada, açúcar, ameixa” e o som daquele dia se repetiria lentamente, até desaparecer.


Este texto foi livremente baseado na canção ‘A Day in the Life’, dos Beatles, e em fatos não tão reais ou não tão imaginários assim.