sexta-feira, 1 de maio de 2015

Um dia na vida

Para você ouvir enquanto lê:


Acordou atrasado, mas mesmo assim correu os olhos nas notícias do dia. Entre acidentes fatais e um sortudo que ganhou na loteria, passou o pente apressado, engoliu o café e correu para o ponto de ônibus.

Trabalhou o dia todo. Cortava cuidadosamente cada palavra, cada letra, montando painéis imensos. Contava os buracos e os preenchia, frase após frase, sentença após sentença. Leu mais uma vez sobre enriquecimentos ilícitos, sobre negociatas, sobre lucros de milhões, de bilhões.

Não pôde deixar de rir ao ver a própria imagem refletida no vidro. Como uma fotografia, ela denunciava o tempo. Não havia multidão, não havia burburinho. Apenas uma única imagem refletida no vidro.

“Dança, fada, açúcar, ameixa”, repetia seu mantra sempre que lia histórias de poderosos envolvidos em podridões. Lembrava-se do aluguel, da torneira pingando, todas as noites, todas as manhãs.

Naquele dia, mais uma vez olhou para trás. Milhares de palavras recortadas meticulosamente para contar histórias de paz e de guerra. Histórias de mocinhos e bandidos. Os olhos correndo pelas palavras, recortando, colando, refletindo, poderosos, milhões, bilhões.

Naquela noite, voltou para casa na hora de sempre. Beijou a mulher, observou os sonhos das crianças e ficou à espera de mais uma manhã. “Dança, fada, açúcar, ameixa” e o som daquele dia se repetiria lentamente, até desaparecer.


Este texto foi livremente baseado na canção ‘A Day in the Life’, dos Beatles, e em fatos não tão reais ou não tão imaginários assim.




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